<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'><id>tag:blogger.com,1999:blog-4049676</id><updated>2011-07-20T01:12:00.946-03:00</updated><title type='text'>Pequeno Dicion?rio de Arquétipos de Massa</title><subtitle type='html'>pequenas ficções e alguma crueldade</subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://archetipos.blogspot.com/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4049676/posts/default?max-results=100'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://archetipos.blogspot.com/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><author><name>Fabio Fernandes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15069657285755566125</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='21' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_bEKLehsw_1Y/SfG_J6U1BII/AAAAAAAAAD0/Dlentsz9eLo/S220/fabio04_200701.jpg'/></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>33</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>100</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4049676.post-105994587289643004</id><published>2003-08-03T18:24:00.000-03:00</published><updated>2003-08-03T18:24:32.853-03:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;b&gt;Buraco Negro&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que era mesmo que você tinha que fazer no banheiro?&lt;br /&gt;Os olhos percorrem o armário escancarado atrás do espelho. Então você vê a caixinha de Tranxilene e lembra.&lt;br /&gt;Engole o comprimido em seco.&lt;br /&gt;O pior não é a perda de memória, você pensa. O pior é você não esquecer que está começando a esquecer as coisas. A consciência da perda é o que mais incomoda. Mas os médicos já desenganaram você: não tem jeito, esse tipo de doença degenerativa funciona assim. Chega um ponto em que a única lembrança será a de que você não tem mais lembranças. E você já está tão anestesiado pelos remédios que não consegue mais ficar triste com isso.&lt;br /&gt;Mas o que era mesmo que você tinha que fazer no banheiro?&lt;br /&gt;Você vê a caixinha de Tranxilene e lembra. Engole o comprimido em seco e vai saindo. Anda até a cozinha e vê as horas no relógio do lado do armário da louça. &lt;br /&gt;Você não tinha que ir no banheiro?&lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4049676-105994587289643004?l=archetipos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4049676/posts/default/105994587289643004'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4049676/posts/default/105994587289643004'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://archetipos.blogspot.com/2003_08_03_archive.html#105994587289643004' title=''/><author><name>Fabio Fernandes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15069657285755566125</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='21' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_bEKLehsw_1Y/SfG_J6U1BII/AAAAAAAAAD0/Dlentsz9eLo/S220/fabio04_200701.jpg'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4049676.post-105879387840824393</id><published>2003-07-21T10:24:00.000-03:00</published><updated>2003-07-21T10:24:38.336-03:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;b&gt;Ciborgues&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os primeiros brincos eu coloquei em Londres. 91 ou 92, não lembro bem. Um argolão em cada orelha. Naquela época era legal, eu estava com os cabelos compridos, a cara do Steve Vai (só faltava eu emagrecer uns vinte quilos e saber tocar guitarra que nem esse filhadaputa, mas tirando isso até que eu era parecido). Naquela época já tinha um porrilhão de gente com piercing no umbigo, na sobrancelha, na língua. Mas eu não achava isso legal não: maneiro era tattoo. Conheci um pessoal lá em Portobello Road que me levou num tattoo parlor, é assim que eles chamam lá, supermaneiro, tava tocando Queensryche a todo volume (eu achava meio farofa, sei lá, mas depois alguém colocou um CD do Metallica e ficou mais legal) e fiz a primeira tatuagem: um planeta grande no meu braço esquerdo com uma nave espacial em primeiro plano.&lt;br /&gt;Quando voltei foi um escândalo, mamãe ficou de cama dois dias e meu pai me deu um puta esporro, o que é que você tá pensando da vida? Eu? Eu não tava pensando nada. Só queria tocar meu som e ser feliz.&lt;br /&gt;Mas quando eu fui morar com a turma do Vidal é que foi do caralho. Na época era a maior festa lá em casa, a gente fazia um som lá ou juntava a turma e ia no Garage, lá na Praça da Bandeira. Foi numa dessas que a namorada dele me apresentou a Joana. Maior gata: branquinha, branquinha, cabelo preto comprido. E uma tatuagem de dragão nas costas. Era um dragão vermelho enorme, só dava para ver a cabeça dele quando ela jogava o cabelo de lado. Só fui ver o bicho todo quando levei ela lá pra casa. A cauda do dragão terminava no reguinho da bunda dela. Coisa louca.&lt;br /&gt;O meu dragão não ficou tão grande, mas ficou maneiro. Fiz no peito. Não tenho muito pêlo mesmo, raspei o tufo que tinha bem no meio e mandei o cara tascar lá. &lt;br /&gt;Um dia ela chegou lá em casa com um piercing no nariz. Sabe que ficou bonito pra cacete? Aí eu perdi a bolação que eu tinha com isso e coloquei um também. Também, eu já tinha uns três brincos em cada orelha, pra que ficar de frescura? Eu só não queria fazer na língua (que nem o que ela fez depois, mas o dela ficou legal) porque tinha receio de me atrapalhar na hora de cantar. &lt;br /&gt;Hoje a gente tá comemorando dez anos juntos. Não é mole. A gente chegou a se separar umas duas vezes, mas foi por pouco tempo, a gente nem conta. Da segunda a gente brigou feio, ela até quebrou uma garrafa de cerveja na minha cabeça. Levei oito pontos. Ainda bem que nessa época eu já tinha raspado a cabeça. Pensei que ia deixar cicatriz, e isso ia estragar a tattoo de teia de aranha que eu fiz. Mas não, ficou perfeito. Ficou tão legal que depois ela também raspou a cabeça, mas não tatuou em cima não: colocou um código de barras enorme na nuca, ficou muito maneiro. E logo embaixo, as seguintes palavras: os ciborgues também amam. É ou não é pra ter orgulho de uma mulher dessa?&lt;br /&gt;A última que a gente fez foi juntos, pra celebrar o nosso amor. Sente só: tatuei o nome dela no meu pau e ela tatuou o meu na testa da buceta, logo em cima da rachinha. Na boa, não é lindo?&lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4049676-105879387840824393?l=archetipos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4049676/posts/default/105879387840824393'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4049676/posts/default/105879387840824393'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://archetipos.blogspot.com/2003_07_20_archive.html#105879387840824393' title=''/><author><name>Fabio Fernandes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15069657285755566125</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='21' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_bEKLehsw_1Y/SfG_J6U1BII/AAAAAAAAAD0/Dlentsz9eLo/S220/fabio04_200701.jpg'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4049676.post-105754529740768084</id><published>2003-07-06T23:34:00.000-03:00</published><updated>2003-07-06T23:34:57.320-03:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;b&gt;Dois microcontos&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;I&lt;br /&gt;Nada no mundo podia separá-los.&lt;br /&gt;E então veio o asteróide.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;II&lt;br /&gt;- Não se resolve nada com violência - disse o filósofo ao kickboxer, segundos antes de apertar o gatilho.&lt;br /&gt;- Eu sei - respondeu o kickboxer ao se desvencilhar do revólver e quebrar a espinha do filósofo em dois lugares.&lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4049676-105754529740768084?l=archetipos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4049676/posts/default/105754529740768084'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4049676/posts/default/105754529740768084'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://archetipos.blogspot.com/2003_07_06_archive.html#105754529740768084' title=''/><author><name>Fabio Fernandes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15069657285755566125</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='21' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_bEKLehsw_1Y/SfG_J6U1BII/AAAAAAAAAD0/Dlentsz9eLo/S220/fabio04_200701.jpg'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4049676.post-95602568</id><published>2003-06-12T17:06:00.000-03:00</published><updated>2003-06-12T17:06:07.130-03:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;br /&gt;&lt;b&gt;O Incrível Homem que Encolheu&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Você vomita mais uma vez. É a terceira vez hoje. Mas você acha pouco.&lt;br /&gt;Como é que as pessoas podem ser tão cruéis?&lt;br /&gt;Você era tão gordo. Sempre foi. Pior do que chamar você de gordo é dizer que você está tão bem, que nunca teve nada, que está excelente do jeito que está.&lt;br /&gt;Dizer que você é magro é a pior ofensa.&lt;br /&gt;Você vomita mais uma vez. Pedacinhos de fruta flutuam na água verde do vaso. Parece iogurte. Você sente náuseas só de pensar em comida.&lt;br /&gt;Você tem inveja de faquires indianos, de modelos anoréxicas, de todo mundo que só consome o suficiente para se manter de pé. Você tem ódio de comida.&lt;br /&gt;Você vomita mais uma vez. Já é a quarta. Não há mais o que botar para fora. Mas você acha pouco. Não vai descansar enquanto não estiver desintoxicado, pleno, limpo.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4049676-95602568?l=archetipos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4049676/posts/default/95602568'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4049676/posts/default/95602568'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://archetipos.blogspot.com/2003_06_08_archive.html#95602568' title=''/><author><name>Fabio Fernandes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15069657285755566125</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='21' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_bEKLehsw_1Y/SfG_J6U1BII/AAAAAAAAAD0/Dlentsz9eLo/S220/fabio04_200701.jpg'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4049676.post-94747270</id><published>2003-05-22T15:03:00.000-03:00</published><updated>2003-05-22T15:03:36.356-03:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;b&gt;Tem arquétipo novo&lt;/b&gt; na revista &lt;a href="http://www.givago.com" target="_blank"&gt;Givago&lt;/a&gt;, do Emílio Fraia. Não dá pra colocar a URL exata do conto porque ele está em flash, mas não tem mistério: basta, na home, clicar no banner &lt;b&gt;Histórias de Transtornos&lt;/b&gt;. Cliquem e ele abrirá uma janela menor com um pequeno índice. O meu é o conto número 5 - um arquétipo inédito chamado &lt;b&gt;Lobisomens&lt;/b&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E vem mais coisa aí, aguardem.&lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4049676-94747270?l=archetipos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4049676/posts/default/94747270'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4049676/posts/default/94747270'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://archetipos.blogspot.com/2003_05_18_archive.html#94747270' title=''/><author><name>Fabio Fernandes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15069657285755566125</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='21' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_bEKLehsw_1Y/SfG_J6U1BII/AAAAAAAAAD0/Dlentsz9eLo/S220/fabio04_200701.jpg'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4049676.post-93668381</id><published>2003-05-02T16:38:00.000-03:00</published><updated>2003-05-02T16:38:41.390-03:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;br /&gt;&lt;b&gt;A Arte da Guerra&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É assim: enfie a faca sempre abaixo do peito, três ou quatro dedos abaixo do centro. É nesse ponto que fica o diafragma. É o ponto mais macio dessa área, porque não tem osso. Enfiar um objeto perfurocortante no peito de alguém é algo que só pode fazer quem tem muita força no braço, porque senão corre o risco da faca ficar presa no esterno, e pra tirar não é fácil. Mesma coisa nas laterais: acontece muito com baionetas. Se você enfia a baioneta no flanco de um sujeito, tem que ser abaixo das costelas, na região dos rins. Caso contrário, a ponta da baioneta fica presa na carcaça do morto e você tem duas opções: ou deixa a arma onde está e corre o risco de uma corte marcial por deserção ou comportamento covarde em batalha (faziam isso muito na França, na época da Primeira Guerra) ou tenta retirar à força e morre tentando, porque logo vem um compatriota do cadáver e enfia a baioneta nas suas costelas. E aí começa tudo de novo.&lt;br /&gt;Entendeu? Enfie a faca sempre, mas sempre abaixo do peito. O cara vai sofrer, e não vai morrer na hora. Mas sem ar ele não tem força, e vai ficar incapacitado. Aí é só terminar o serviço com calma. E limpeza, que é fundamental.&lt;br /&gt;Entendeu tudo mesmo? Então pode ir. E não me volte aqui sem a cabeça daquele filho da puta. &lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4049676-93668381?l=archetipos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4049676/posts/default/93668381'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4049676/posts/default/93668381'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://archetipos.blogspot.com/2003_04_27_archive.html#93668381' title=''/><author><name>Fabio Fernandes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15069657285755566125</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='21' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_bEKLehsw_1Y/SfG_J6U1BII/AAAAAAAAAD0/Dlentsz9eLo/S220/fabio04_200701.jpg'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4049676.post-92584576</id><published>2003-04-14T11:43:00.000-03:00</published><updated>2003-04-14T11:43:13.826-03:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;Bruxas&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aqueles olhos. E aqueles lábios.&lt;br /&gt;E como ela fodia bem.&lt;br /&gt;Depois, quando tudo tivesse passado, você chegaria à conclusão de que foi justamente por aí que ela te enfeitiçou. Pela buceta. &lt;br /&gt;Sejamos francos: você gostava de exibir aquela mulher. Gostava de se sentir amo e senhor de uma criatura bonita e sensual, que atraía o desejo dos homens e a inveja das mulheres. E ela era só sua.&lt;br /&gt;E você era só dela.&lt;br /&gt;No começo tudo bem, era o que você queria. Até começarem as crises de ciúmes.&lt;br /&gt;Que eram apenas um pretexto. Porque tudo era motivo para briga.&lt;br /&gt;Era uma relação sadomasoca, mais do que você gostaria de admitir. Porque não se restringia só à cama.&lt;br /&gt;E acabou como sempre acaba esse tipo de relação. Na porrada. Você não se orgulha disso.&lt;br /&gt;Até hoje, quando você saiu com os amigos que a conheceram, ocasionalmente algum deles faz a pergunta: por onde anda ela?&lt;br /&gt;E a mesa faz um minuto de silêncio.&lt;br /&gt;Você não tem a menor idéia de onde anda aquela mulher que te enfeitiçou.&lt;br /&gt;Mas que ela existe, existe.&lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4049676-92584576?l=archetipos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4049676/posts/default/92584576'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4049676/posts/default/92584576'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://archetipos.blogspot.com/2003_04_13_archive.html#92584576' title=''/><author><name>Fabio Fernandes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15069657285755566125</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='21' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_bEKLehsw_1Y/SfG_J6U1BII/AAAAAAAAAD0/Dlentsz9eLo/S220/fabio04_200701.jpg'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4049676.post-91730536</id><published>2003-03-31T18:03:00.000-03:00</published><updated>2003-03-31T18:03:47.860-03:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;A Guerra dos Mundos&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;porque é assim, entendeu, porra? não vou dar mole pra ninguém, vai pegar geral. se alguém abrir loja hoje lá embaixo vou passar o cerol. polícia se quiser vir que venha, foda-se. não vou pagar mais merda nenhuma pra esses filhadaputa. não quero mais saber, aí: quando pleiboizinho vem aqui comprar pó e se fode lá embaixo chega logo o paizinho pra liberar. aqui não tem pai nem mãe não, porra. aqui ninguém tem pai nem mãe. aqui é tudo fudido.&lt;br /&gt;o pessoal lá embaixo vai se cagar nas calças. é bom mesmo eles se fuder de vez em quando pra ver como é que é aqui todo dia. vai ser o terror. polícia se subir vai tomar teco nos cornos. agora é guerra.&lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4049676-91730536?l=archetipos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4049676/posts/default/91730536'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4049676/posts/default/91730536'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://archetipos.blogspot.com/2003_03_30_archive.html#91730536' title=''/><author><name>Fabio Fernandes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15069657285755566125</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='21' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_bEKLehsw_1Y/SfG_J6U1BII/AAAAAAAAAD0/Dlentsz9eLo/S220/fabio04_200701.jpg'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4049676.post-91029308</id><published>2003-03-19T23:20:00.000-03:00</published><updated>2003-03-19T23:20:39.076-03:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;br /&gt;&lt;b&gt;O Mito do Herói&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É, meu amigo Charlie. Era um garoto que amava Blur e Radiohead. Foi lutar pela pátria. Com soldados armados, amados ou não. Não há luar, ó gente, ó não, luar como esse do sertão que é o deserto. No rancho do seu pai no Texas também era assim, ou quase. Só não tinha esse bombardeio todo, esse calor desmesurado, essa sede. E agora, Joseph? Minnesota não há mais. Os cães de guerra ladram e a caravana passa. Tudo passa, tudo sempre passará. A morte vem em ondas como as dunas. E o mundo é apenas um retrato na parede. Mas como dói. &lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4049676-91029308?l=archetipos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4049676/posts/default/91029308'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4049676/posts/default/91029308'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://archetipos.blogspot.com/2003_03_16_archive.html#91029308' title=''/><author><name>Fabio Fernandes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15069657285755566125</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='21' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_bEKLehsw_1Y/SfG_J6U1BII/AAAAAAAAAD0/Dlentsz9eLo/S220/fabio04_200701.jpg'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4049676.post-90646680</id><published>2003-03-13T11:19:00.000-03:00</published><updated>2003-03-13T11:19:02.043-03:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;O Imortal&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nasceu pobre, no interior. Nunca tinha visto o mar: era esse um dos seus sonhos. Escreveu um poema sobre um barco sem saber qual era a sensação de estar dentro de um.&lt;br /&gt;Viajou para a capital, tão bonita com suas luzes. Teve iluminações. &lt;br /&gt;Foi lá que conheceu o amor. Amores. Dez corações de uma vez para poder se apaixonar. &lt;br /&gt;Levou um tiro do amante louco de ciúmes; escapou e foi para a África traficar armas. Escapou da bala, mas não da doença que o corroeu e o matou ainda novo. Não tinha vinte e cinco anos.&lt;br /&gt;Nunca mais escreveu poemas. Não precisava: ao morrer, havia vivido tantas vidas numa só. Vai, Arthur, ser gauche na vida.&lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4049676-90646680?l=archetipos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4049676/posts/default/90646680'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4049676/posts/default/90646680'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://archetipos.blogspot.com/2003_03_09_archive.html#90646680' title=''/><author><name>Fabio Fernandes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15069657285755566125</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='21' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_bEKLehsw_1Y/SfG_J6U1BII/AAAAAAAAAD0/Dlentsz9eLo/S220/fabio04_200701.jpg'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4049676.post-90472915</id><published>2003-03-10T16:38:00.000-03:00</published><updated>2003-03-10T16:38:49.403-03:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;b&gt;Da Série: Rascunhos Encontrados em Cadernos Velhos.&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;"A moldura cerâmica do espelho é na verdade um supercondutor state of the art, que gera um campo gravistático (ou gravidinâmico, ainda não sei bem), ou seja, contém um microssistema fechado onde as leis da gravidade são manipuladas dentro de certos parâmetros. Grosso modo, é aquilo que os filmes de ficção científica convencionaram chamar de 'campo de força'."&lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4049676-90472915?l=archetipos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4049676/posts/default/90472915'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4049676/posts/default/90472915'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://archetipos.blogspot.com/2003_03_09_archive.html#90472915' title=''/><author><name>Fabio Fernandes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15069657285755566125</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='21' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_bEKLehsw_1Y/SfG_J6U1BII/AAAAAAAAAD0/Dlentsz9eLo/S220/fabio04_200701.jpg'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4049676.post-90241842</id><published>2003-03-06T12:33:00.000-03:00</published><updated>2003-03-06T12:33:26.216-03:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;Zumbis&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A primeira coisa que Levi pensou ao derrubarem a cerca do campo de Dachau foi: qual é o caminho de casa?&lt;br /&gt;Levi levou dias para chegar à sua aldeia, no interior da Polônia.&lt;br /&gt;Ou ao que restou dela.&lt;br /&gt;Não havia pedra sobre pedra. As ruínas se estendiam por quilômetros, até onde a vista conseguia alcançar. Até onde os óculos tortos e de lentes rachadas de Levi podiam alcançar.&lt;br /&gt;Levi sentou-se sobre a maior pedra que havia por perto. Não tinha forças para chorar. Morto de fome, chegou a esperar que ao menos um rato passasse por ali. &lt;br /&gt;Não passou. Em seu lugar, apareceram lentamente pessoas. Pessoas diferentes dele, macilentas mas coradas, magras mas ainda gordas se comparadas a ele. &lt;br /&gt;Mas essas pessoas jamais aceitariam qualquer espécie de comparação com Levi. Porque Levi era judeu, e para eles, outrora moradores das ruínas que foram uma aldeia, a culpa do massacre nazista era da raça dele.&lt;br /&gt;A primeira pedra atingiu em cheio a testa de Levi.&lt;br /&gt;Ele caiu com o supercílio aberto. O sangue que empapou o rosto logo cobriu os óculos. Levi não viu o resto das pedras que caíram sobre seu corpo.&lt;br /&gt;Um cientista disse certa vez que, se a Terceira Guerra fosse nuclear, a Quarta seria lutada com paus e pedras. Levi não esperou tanto.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4049676-90241842?l=archetipos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4049676/posts/default/90241842'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4049676/posts/default/90241842'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://archetipos.blogspot.com/2003_03_02_archive.html#90241842' title=''/><author><name>Fabio Fernandes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15069657285755566125</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='21' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_bEKLehsw_1Y/SfG_J6U1BII/AAAAAAAAAD0/Dlentsz9eLo/S220/fabio04_200701.jpg'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4049676.post-89770781</id><published>2003-02-26T08:48:00.000-03:00</published><updated>2003-02-26T08:48:04.123-03:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;Eu, Robô&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pepê viu a pêra. Pepê tem fome. Pepê baba.&lt;br /&gt;A enfermeira boa limpa a baba de Pepê. Pepê vê a pera. A enfermeira dá a pêra na boca de Pepê.&lt;br /&gt;Pepê é débil. Pepê não pensa. Pepê perdeu o prumo.&lt;br /&gt;Pepê viu pó.&lt;br /&gt;Era bom. Era bom paca.&lt;br /&gt;Pepê viu o ele-esse-dê.&lt;br /&gt;Era muito bom.&lt;br /&gt;Aí Pepê pirou.&lt;br /&gt;Hoje Pepê virou robô.&lt;br /&gt;Pepê viu a pêra. Pepê tem fome. Pepê baba.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4049676-89770781?l=archetipos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4049676/posts/default/89770781'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4049676/posts/default/89770781'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://archetipos.blogspot.com/2003_02_23_archive.html#89770781' title=''/><author><name>Fabio Fernandes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15069657285755566125</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='21' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_bEKLehsw_1Y/SfG_J6U1BII/AAAAAAAAAD0/Dlentsz9eLo/S220/fabio04_200701.jpg'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4049676.post-89382303</id><published>2003-02-19T16:15:00.000-03:00</published><updated>2003-02-19T16:15:43.866-03:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;Outras Vozes (Fragmento de Conto Grande)&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;...e de qualquer maneira, Luís não se lembra de como foi parar ali, naquele lugar escuro, úmido e apertado, e não, não é nem de longe o lugar escuro, úmido e apertado dentro do qual ele queria estar naquele momento, pelo contrário, esse lugar parece envolto em brumas, imagens ligeiramente distorcidas, como se vistas através de um vidro coberto por uma fina camada de condensação, ou como se vistas através de olhos cansados e pesados de fumo, bebida ou ácido ou quem sabe até as três coisas juntas, não seria impossível, e em todo caso seria provavelmente mais viável que um sonho, enfim, poderia também ser um sonho, mas isso se ele não tivesse certeza de que está tão desperto, coisa que a latinha de cerveja que praticamente congela sua mão não o deixa esquecer e nisso é muito mais eficaz do que qualquer indagação filosófica a respeito da natureza da realidade, ou do que qualquer livro de Philip K. Dick ou Cortázar. Luís está no meio da pista de dança, atravessando-a à procura. De quem? Não lembra. Pede licença, esbarra aqui, acotovela acolá, precisa se locomover, atravessar o mar de gente indefinida e imprecisa que se avoluma e se espessa na pista de dança e nos corredores obscuros, chegar a algum lugar mesmo sem saber onde, porque navegar é preciso, viver não é preciso, diz o poeta, e nesse instante é como se ele ouvisse o som da voz triste e gritada de Amália Rodrigues se derramando pelas caixas de som ao invés de, ao invés de, ao invés de que mesmo? Luís não sabe, só sabe que anda,  anda como se as pernas não lhe pertencessem, e quando ele se dá conta é como se elas não pertencessem mesmo a seu corpo, porque não as sente, seus sentidos estão tomados de assalto pelo ambiente. Os ouvidos, pelos vocais plangentes de Robert Smith, porque agora você se lembra que o que sai das carrapetas do DJ não é fado, bolero ou tango, mas o bom e velho britpop dos eighties, para ser específico “Charlotte Sometimes”, a canção pungente do The Cure que sempre invadiu seus ouvidos com uma sensação arrebatadora, mas que agora é perturbadora, incômoda, labiríntica, como se tirasse os seus pés do chão, não de arrebatamento extático, mas como se fosse um ataque de labirintite, um  terremoto dos sentidos, um impacto profundo no ouvido interno, um soco na cara da realidade que quase faz com que seus olhos saltem de tão arregalados para tentar ver além do véu de Maya que embaça tudo à sua frente, e enquanto isso ele anda por entre as pessoas no ambiente apertado e sufocante. Ele busca uma saída, e seus pés se dirigem para a escada em espiral antes mesmo de se dar conta, se dar conta, se dar conta de quê? Preciso parar de beber, ele pensa sem se levar a sério descendo os degraus estreitos de ferro fundido, porque tem certeza de que toda vez que bebe demais pensa exatamente a mesma coisa. Isso quando não tem seus cada vez mais freqüentes brancos, buracos no tecido da memória, freqüentemente no quesito “localização”: Luís não sabe onde está, e tem uma desconfiança amarga de que não é a primeira vez. Também não é a primeira vez que ele vê a aranha verde pendurada em sua teia de corda num dos cantos do teto preto do andar térreo, particularmente visível a partir do antepenúltimo degrau da escada, no sentido de quem desce. A aranha de espuma é gigantesca, deve ser do tamanho de sua cabeça e reluz fosforescente. Só então Luís lembra onde está: U-Bahn. Um bar dark em Botafogo, zona sul do Rio de Janeiro. As paredes pintadas de preto, os rapazes e moças, todos de cabelos negros ou pintados de, atendem os clientes usam todos pancake branco e batom roxo, e vestem roupas inteiramente pretas. Ele também está vestido de preto, pois é o código da sua tribo. Ninguém é barrado se entrar vestido de outras cores, mas não seria a mesma coisa. Luís sabe que já não é a mesma coisa há muito tempo. Porque acaba de se dar conta de algo.&lt;br /&gt;O U-Bahn fechou há quase vinte anos.&lt;br /&gt;Agora Luís sabe que está sonhando. Ele tem dessas coisas de vez em quando: a consciência do sonho, aquele instante mágico, aquela epifania que o arrebata, e desta vez, sim, é um arrebatamento, uma excitação percorrendo sua espinha, a certeza de que está vivendo um momento único. O momento em que, ainda sonhando, ele percebe que sonha.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4049676-89382303?l=archetipos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4049676/posts/default/89382303'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4049676/posts/default/89382303'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://archetipos.blogspot.com/2003_02_16_archive.html#89382303' title=''/><author><name>Fabio Fernandes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15069657285755566125</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='21' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_bEKLehsw_1Y/SfG_J6U1BII/AAAAAAAAAD0/Dlentsz9eLo/S220/fabio04_200701.jpg'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4049676.post-89185281</id><published>2003-02-16T10:56:00.000-03:00</published><updated>2003-02-16T10:56:03.270-03:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;br /&gt;&lt;b&gt;O Escritor Maldito&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Caralho, detesto entrevista. Por quê? Porque vocês jornalistas só fazem perguntas imbecis. O quê? Ah, se eu tô te ofendendo, foda-se. Você tá aqui porque quer, porta da rua é serventia da casa.&lt;br /&gt;Você ta me perguntando quem eu sou? Você estudou filosofia ou é burro mesmo? Não, eu respondo, tudo bem, é bom mesmo: eu sou um escritor maldito, é o que eu sou. Eu escrevo as minhas angústias. Eu não quero nem saber se eu sou ou deixo de ser porta-voz da minha geração. Eu sou mais eu.&lt;br /&gt;Por que é que você fica olhando tanto pras minhas tatuagens? E o meu cabelo? É roxo, nunca viu? O que eu escrevo é muito mais importante que isso, porra. Você tem que falar é do que eu escrevo. Angústia é muito mais importante do que tatuagem ou cor de cabelo.&lt;br /&gt;Ah, vá se foder. Eu sou é bom.&lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4049676-89185281?l=archetipos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4049676/posts/default/89185281'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4049676/posts/default/89185281'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://archetipos.blogspot.com/2003_02_16_archive.html#89185281' title=''/><author><name>Fabio Fernandes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15069657285755566125</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='21' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_bEKLehsw_1Y/SfG_J6U1BII/AAAAAAAAAD0/Dlentsz9eLo/S220/fabio04_200701.jpg'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4049676.post-89088784</id><published>2003-02-14T11:03:00.000-02:00</published><updated>2003-02-14T11:03:16.406-02:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;b&gt;Interlúdio (ou: fragmentos que não viraram Arquétipos)&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;Arqueologia&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- “Monumento aos Mortos da 2a. GM.” O que é GM?&lt;br /&gt;- Essa é fácil. General Motors. Era uma empresa antiga de automóveis.&lt;br /&gt;- Automóveis? O que é isso?&lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4049676-89088784?l=archetipos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4049676/posts/default/89088784'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4049676/posts/default/89088784'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://archetipos.blogspot.com/2003_02_09_archive.html#89088784' title=''/><author><name>Fabio Fernandes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15069657285755566125</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='21' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_bEKLehsw_1Y/SfG_J6U1BII/AAAAAAAAAD0/Dlentsz9eLo/S220/fabio04_200701.jpg'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4049676.post-88805415</id><published>2003-02-09T16:00:00.000-02:00</published><updated>2003-02-09T16:00:47.066-02:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;O Viajante do Tempo&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Viajante do Tempo vive no passado. Nunca conhecera momento melhor do que aquele que já se fora e não voltaria mais.&lt;br /&gt;Quando criança, ouvia os discos de 78 rotações do pai e sonhava com um tempo que não conhecera, mas que sem dúvida era melhor do que aquela infância insossa no quintal de terra batida cheio de árvores frutíferas e mil brincadeiras. Para o Viajante, tempo bom era o de seus pais.&lt;br /&gt;Na adolescência, gostava de levar a namorada (que conhecera na infância) para ver o mar, e cantarolar tangos e boleros em seu ouvido. Os boleros naquele tempo eram razoavelmente novos.&lt;br /&gt;Casou-se com ela, teve um casal de filhos. Abriu um brechó. Tinha um carro velho, caindo aos pedaços. Era incapaz de lidar com novidades.&lt;br /&gt;Até que veio a má notícia. Sua mulher tinha câncer.&lt;br /&gt;Ela não durou muito. E o Viajante ficou só, com os filhos, os discos, as lembranças.&lt;br /&gt;Preferiu os discos e as lembranças.&lt;br /&gt;O Viajante nunca mais voltou ao presente.&lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4049676-88805415?l=archetipos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4049676/posts/default/88805415'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4049676/posts/default/88805415'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://archetipos.blogspot.com/2003_02_09_archive.html#88805415' title=''/><author><name>Fabio Fernandes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15069657285755566125</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='21' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_bEKLehsw_1Y/SfG_J6U1BII/AAAAAAAAAD0/Dlentsz9eLo/S220/fabio04_200701.jpg'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4049676.post-88529345</id><published>2003-02-04T11:24:00.000-02:00</published><updated>2003-02-04T11:24:03.280-02:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;A Princesa Prometida&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A princesa prometida é uma moça a quem o tempo maltratou como flores, já disse um poeta. Uma moça de vinte e dois anos.&lt;br /&gt;Essa moça passa os dias trancada em seu quarto a sonhar. Em seus sonhos - sempre perfumados com incenso e o doce cheiro de palha queimada de seu cigarro - ela está vestida de nuvens, e corre com os pés descalços sobre a grama verde e úmida de uma manhã de primavera.&lt;br /&gt;Vindo em sua direção, um cavaleiro andante, um homem forte e belo, robusto e trágico, que sorri triste para ela. Ela não o conhece ainda, mas sabe que ele é o homem de sua vida. Sabe que é um homem mais vivido e experiente, e que já sofreu muito, mas é para isso que ela foi criada toda sua vida: para apaziguar o sofrimento do guerreiro, e lhe conceder repouso em seu regaço. E, embevecido pelos seus cuidados, ele cuidará também dela, e lha ensinará tudo o que deve saber. Nem mais, nem menos.&lt;br /&gt;No escuro do quarto, vestida de sonhos, ela ouve obrigada o disco de tango de seu pai. Mas ele não será jamais obrigado a sentir o cheiro doce do cigarro que ela traga fundo. Nem nunca sentirá a doçura dos sonhos que ela tem quando dorme.&lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4049676-88529345?l=archetipos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4049676/posts/default/88529345'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4049676/posts/default/88529345'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://archetipos.blogspot.com/2003_02_02_archive.html#88529345' title=''/><author><name>Fabio Fernandes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15069657285755566125</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='21' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_bEKLehsw_1Y/SfG_J6U1BII/AAAAAAAAAD0/Dlentsz9eLo/S220/fabio04_200701.jpg'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4049676.post-88355017</id><published>2003-01-31T23:02:00.000-02:00</published><updated>2003-01-31T23:02:50.653-02:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;O Imperador da Galáxia&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Imperador da Galáxia contempla sentado seu reino na tela do computador. Os olhos atentos vasculhando as mensagens, ele mal percebe os óculos que caem na ponta do nariz, as espinhas que povoam seu rosto, a barriga enorme que salta para fora da blusa de algodão puída.&lt;br /&gt;O Regente Supremo de Toda a Espécie Humana é um garoto de treze anos.&lt;br /&gt;Ninguém sabe que é ele quem controla os destinos de todos. Só ele. Mas isso por enquanto está bem. Quanto menos gente interferir em sua vida, melhor.&lt;br /&gt;Não que haja muita gente que seja capaz de interferir na vida ocupada do Imperador da Galáxia. A Rainha-Mãe há muito que é morta - para falar a verdade, ele mal a conheceu - sua irmã vive trancada em seus aposentos, de onde exala um cheiro enjoativo de incensos e coisas proibidas que ela usa com fins secretos. &lt;br /&gt;E o pai do Imperador. Um homem perdido, que se perde em um tempo em que tudo era melhor.&lt;br /&gt;O Imperador concorda plenamente com seu pai, para ele o melhor ser humano que já existiu na face da terra. Um homem bom, digno, incapaz de fazer qualquer maldade. E que destruíram sem dó nem piedade, e só consegue encontrar na bebida e nos discos de Gardel o lenitivo para seu sofrimento. Nesses momentos o Imperador se lamenta, sofre solidário, e jura que fará algo a respeito. Mas hoje não.&lt;br /&gt;O Imperador passa seus dias reinando supremo em listas de discussão no espaço cibernético, emitindo opiniões, lançando conceitos, revoltando-se contra os infiéis decadentes. Pouco lhe importa que lhe atirem pedras: no fundo, sabe que está certo. &lt;br /&gt;Há muito ele resolveu o problema da barriga. O Imperador da Galáxia parou de olhar seu corpo no espelho.&lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4049676-88355017?l=archetipos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4049676/posts/default/88355017'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4049676/posts/default/88355017'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://archetipos.blogspot.com/2003_01_26_archive.html#88355017' title=''/><author><name>Fabio Fernandes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15069657285755566125</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='21' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_bEKLehsw_1Y/SfG_J6U1BII/AAAAAAAAAD0/Dlentsz9eLo/S220/fabio04_200701.jpg'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4049676.post-88217023</id><published>2003-01-29T16:08:00.000-02:00</published><updated>2003-01-29T16:08:02.130-02:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;Realidade Virtual&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Luís gostava de ler. Tudo o que lhe caísse nas mãos era bem-vindo: livro, revista, bula de remédio. Preferia, contudo, os livros. Aprendera desde muito cedo que cada livro era um mundo, pleno de possibilidades.&lt;br /&gt;Luís também era pleno de possibilidades. Pais de classe média, boas escolas, futuro brilhante. Poderia fazer o que quisesse na vida, condições para isso não lhe faltavam.&lt;br /&gt;Mas a vida era dura. A cada crise, a cada problema nos estudos, no estágio, nos empregos, Luís buscava santuário nos livros. Ali ele não precisava lutar pelo pão de cada dia do patrão com o suor do seu rosto; não precisava engolir sapos viscosos a cada dia no escritório; não precisava aprender a se relacionar bem com os colegas. Ali ele pilotava naves no espaço profundo, solucionava crimes impossíveis, desbaratava conspirações, fazia sexo com a mocinha no final. Luís aprendera que ali as regras eram outras: todos os mundos eram bons, até mesmo os maus; todos os mundos eram válidos. &lt;br /&gt;O tempo passou. Luís pulou de emprego em emprego e acabou conseguindo se manter no pior de todos porque todas as outras opções já haviam sido desperdiçadas. Num deles, apaixonou-se. Mas nunca ousou se declarar.&lt;br /&gt;Hoje, Luís está aposentado. A casa, repleta de livros. Não pára de ler nem por um instante, e só sai à rua em caso de absoluta necessidade. Luís aprendeu que todos os mundos valiam a pena ser vividos. Menos o seu próprio.&lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4049676-88217023?l=archetipos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4049676/posts/default/88217023'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4049676/posts/default/88217023'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://archetipos.blogspot.com/2003_01_26_archive.html#88217023' title=''/><author><name>Fabio Fernandes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15069657285755566125</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='21' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_bEKLehsw_1Y/SfG_J6U1BII/AAAAAAAAAD0/Dlentsz9eLo/S220/fabio04_200701.jpg'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4049676.post-87964875</id><published>2003-01-24T15:25:00.000-02:00</published><updated>2003-01-24T15:25:04.773-02:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;Monstro (para Dalton Trevisan)&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não fui eu. Nem conhecia essa menina. Não faço essas coisas, imagina, uma menina tão novinha, tinha o que, nove anos? Oito? Imagina, sou casado, tenho um filho quase da idade dela, pelo amor de deus, seu delegado. Doutor delegado, desculpe. Eu também sou doutor, o senhor sabe. Clínico geral. Dezesseis anos já. Mas não fui eu. Eu nunca faria uma coisa dessas, coitadinha, estuprar a menina e depois afogá-la no rio? Que barbaridade, que crueldade, quem fez isso tem que pagar, tem que sofrer muito na cadeia. Virar mulher na cela. Ou coisa pior. É, a vida é assim. Coitada da menina, tão novinha, tão bonitinha, morrer assim tão machucadinha, apertadinha, sufocada. Estrangulada e afogada, tadinha. Tão lindinha. Como eu sei que ela foi estrangulada antes? O senhor mesmo disse, não disse? Não? &lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4049676-87964875?l=archetipos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4049676/posts/default/87964875'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4049676/posts/default/87964875'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://archetipos.blogspot.com/2003_01_19_archive.html#87964875' title=''/><author><name>Fabio Fernandes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15069657285755566125</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='21' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_bEKLehsw_1Y/SfG_J6U1BII/AAAAAAAAAD0/Dlentsz9eLo/S220/fabio04_200701.jpg'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4049676.post-87747388</id><published>2003-01-20T19:51:00.000-02:00</published><updated>2003-01-20T19:51:03.850-02:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;A Múmia&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Deitada em sua cama, a múmia observa. Apenas observa: há muito não faz outra coisa. &lt;br /&gt;Seu único consolo é que ninguém sabe o que ela pensa. Às vezes nem ela própria. Basta-lhe ouvir as pessoas entrando e saindo do seu quarto, o chocalhar dos vidros de remédio e o pingar incessante do soro ao lado da cama. Às vezes a múmia pensa que pode ouvir as próprias rugas se formando na pele encarquilhada. Como anéis e marcas em troncos de árvores. A múmia acha que leu alguma coisa a respeito em algum lugar. Mas já faz muito tempo.&lt;br /&gt;Ninguém sabe quantos anos a Múmia tem. Nem ela mesma.&lt;br /&gt;Deitada em sua cama, como se embalsamada fosse, a múmia espera sua hora.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4049676-87747388?l=archetipos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4049676/posts/default/87747388'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4049676/posts/default/87747388'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://archetipos.blogspot.com/2003_01_19_archive.html#87747388' title=''/><author><name>Fabio Fernandes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15069657285755566125</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='21' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_bEKLehsw_1Y/SfG_J6U1BII/AAAAAAAAAD0/Dlentsz9eLo/S220/fabio04_200701.jpg'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4049676.post-87583988</id><published>2003-01-17T08:54:00.000-02:00</published><updated>2003-01-17T08:54:27.833-02:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;Desvio para o Vermelho&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Leandro começou com passarinhos. Pegava um pardal com uma arapuca, aninhava o bichinho entre os dedos com um carinho não muito distante do perverso, e em seguida furava-lhe os olhos com uma agulha de costura roubada da mãe.&lt;br /&gt;Uma coisa pode não ter a ver com a outra, mas daí para roubar dinheiro da mãe para comprar um trinta e oito foi um pulo. Primeiro puxou carros, depois pequenos furtos à noite, e finalmente os grandes assaltos à mão armada. Que culminaram com um seqüestro que foi manchete dos grandes jornais.&lt;br /&gt;O que não impediu que ele fosse apanhado. Foi parar num presídio de segurança máxima. Apareceu muito na televisão, mas isso não estava nos planos dele. Pensaram até em fazer um filme sobre sua vida, mas ele não ligava muito para essas coisas. Só pensava em fugir para continuar seu caminho.&lt;br /&gt;O caminho terminou dois meses depois, numa rebelião no presídio. Ao tentar fugir, teve sua saída barrada por dois detentos, que lhe dispararam seis tiros à queima-roupa.&lt;br /&gt;Leandro caiu ainda com vida. O sangue começou a formar poças pelas pernas, braços, tronco e rosto. Leandro sentiu a boca anestesiar, e os olhos foram lentamente perdendo o foco. Agora ele estava calmo. Sabia qual seria o seu destino.&lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4049676-87583988?l=archetipos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4049676/posts/default/87583988'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4049676/posts/default/87583988'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://archetipos.blogspot.com/2003_01_12_archive.html#87583988' title=''/><author><name>Fabio Fernandes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15069657285755566125</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='21' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_bEKLehsw_1Y/SfG_J6U1BII/AAAAAAAAAD0/Dlentsz9eLo/S220/fabio04_200701.jpg'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4049676.post-87348202</id><published>2003-01-13T09:34:00.000-02:00</published><updated>2003-01-13T09:34:33.700-02:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;Vampiros&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Paulo é um homem discreto, apesar da profissão. Ele é músico, baixista, e toca num grupo de jazz conhecido. Está sempre em evidência, embora nunca em primeiro plano. Isso lhe cai bem, pois ele pode andar pelas ruas de Ipanema e do Leblon de madrugada sem que ninguém o perturbe.&lt;br /&gt;Paulo gosta de caçar. Não importa sexo, cor, religião: basta que seus olhos pousem sobre a vítima e um arrepio sutil percorra seu corpo, da base da nuca até a virilha, e pronto. Ele joga seu charme, sempre da maneira mais adequada para o caso em questão. Quase sempre consegue, e é nisso que reside o perigo, pois Paulo conhece bem o velho ditado árabe que diz “Cuidado com o que você procura, pois pode conseguir.” Às vezes Paulo consegue até demais: ele se apaixona. &lt;br /&gt;E então tudo é felicidade, estado de graça. Paulo se entrega à paixão. Seu parceiro do momento também, e sempre se entrega mais (Paulo não escolhe aleatoriamente, afinal). Um dia, de repente, tão súbita quanto no começo, a paixão se acaba. Para Paulo isso não é nada demais, ele já está acostumado: turnês na estrada, viagens constantes, essas coisas não ajudam um relacionamento que se pretenda duradouro. &lt;br /&gt;Mas para seu parceiro da ocasião, a indiferença que Paulo afeta nesse momento é dolorosa. Essa é a pior parte: é o tempo das brigas, das discussões, das ameaças, às vezes das agressões. Paulo sempre sai ileso dessa fase desagradável: não se pode dizer o mesmo de seus amantes. Uma se matou, outra surtou, um terceiro fez anos de análise. Paulo suga todos que se envolvem com eles. E depois joga fora.&lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4049676-87348202?l=archetipos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4049676/posts/default/87348202'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4049676/posts/default/87348202'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://archetipos.blogspot.com/2003_01_12_archive.html#87348202' title=''/><author><name>Fabio Fernandes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15069657285755566125</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='21' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_bEKLehsw_1Y/SfG_J6U1BII/AAAAAAAAAD0/Dlentsz9eLo/S220/fabio04_200701.jpg'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4049676.post-87166445</id><published>2003-01-09T12:46:00.000-02:00</published><updated>2003-01-09T12:46:06.960-02:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;Enterrado Vivo&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Teve um enfarte dentro da sala escura, na última sessão. Além dele, só um casal de namorados ao fundo, que, ao contrário do clichê, não só não estava aos beijos e abraços como também estava prestando bastante atenção ao filme, veja lá se iam ficar interessados no homem na terceira fileira.&lt;br /&gt;No começo era apenas uma dormência no braço esquerdo, mas o homem trocou de posição. Mais alguns minutos e o homem começou a sentir um suor frio e uma ligeira pressão na região do tórax. Ainda pensou que fossem gases, mas a pressão no peito aumentou. &lt;br /&gt;Teve vontade de se levantar; não conseguiu. Pensou em se virar para acenar para o projecionista ou para quem estivesse atrás, mas não sentia mais o braço.&lt;br /&gt;Tentou abrir a boca. Nada.&lt;br /&gt;Útero materno o cacete, pensou ao se lembrar de uma metáfora famosa para a sala escura do cinema. Quando o coração arrebentou, a última palavra que lhe veio à mente foi túmulo.&lt;br /&gt;E ele estava achando o filme uma merda.&lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4049676-87166445?l=archetipos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4049676/posts/default/87166445'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4049676/posts/default/87166445'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://archetipos.blogspot.com/2003_01_05_archive.html#87166445' title=''/><author><name>Fabio Fernandes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15069657285755566125</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='21' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_bEKLehsw_1Y/SfG_J6U1BII/AAAAAAAAAD0/Dlentsz9eLo/S220/fabio04_200701.jpg'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4049676.post-87075225</id><published>2003-01-07T18:39:00.000-02:00</published><updated>2003-01-07T18:39:38.000-02:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;br /&gt;&lt;b&gt;Efeito colateral (pra Marcelo Mirisola)&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Parei de tomar o remédio tem dois dias. Antes do remédio, insônia, angústia, ansiedade, vontade de chorar, vontade de dar porrada, de cortar os pulsos, de tomar alguma coisa só pra poder simplesmente descansar, dormir e não acordar mais, você entende? Não era pra me matar.&lt;br /&gt;Depois do remédio, gordo, gordo, gordo, engordei, fiquei cheio de espinhas, perebinhas, a caspa aumentou, tem seborréia até na sobrancelha, semana passada descobri uma poeirinha esquisita nos cílios. &lt;br /&gt;Foda-se a calma. Parei com o remédio tem dois dias. A vontade de cortar os pulsos já voltou, mas pelo menos as espinhas sumiram. &lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4049676-87075225?l=archetipos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4049676/posts/default/87075225'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4049676/posts/default/87075225'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://archetipos.blogspot.com/2003_01_05_archive.html#87075225' title=''/><author><name>Fabio Fernandes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15069657285755566125</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='21' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_bEKLehsw_1Y/SfG_J6U1BII/AAAAAAAAAD0/Dlentsz9eLo/S220/fabio04_200701.jpg'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4049676.post-86959309</id><published>2003-01-05T10:26:00.000-02:00</published><updated>2003-01-05T10:26:55.203-02:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;As máquinas dominarão o homem&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Felipe é engenheiro. Desde pequeno gostava de consertar aparelhos eletro-eletrônicos. Os pais viram que ele tinha jeito, e quando cresceu o bastante foi estudar numa escola técnica.&lt;br /&gt;O tempo passou e Felipe cursou Engenharia Eletrônica na faculdade. Acabou indo trabalhar para uma empresa japonesa de robótica avançada.&lt;br /&gt;No começo tudo eram flores. Felipe tinha contato direto com a vanguarda da tecnologia de robôs industriais, trabalhava com a nata dos projetistas da área, e estava até estudando japonês para tentar um estágio na sede da empresa em Tsukuba. &lt;br /&gt;Até o dia em que foi encarregado da supervisão de um grande lote de robôs para uma empresa. Ao conversar com o executivo-chefe da empresa, este lhe fez a pergunta, à queima-roupa:&lt;br /&gt;Quantos operários cada robô vai poder substituir?&lt;br /&gt;Isso incomodou a Felipe. Ele nunca leu - nem pretende ler - Marx, mas era inteligente o bastante para ver que a exploração do capital na mão de alguns tendia a entrar no auge a partir dessa substituição por robôs. &lt;br /&gt;Felipe é bastante racional para não sofrer além da conta com isso. Sabe que se não for ele a fazer esse serviço, outro o fará, até o dia em que ele próprio seja substituído por um robô, e depois virá o quê? Felipe estremece quando pensa nessas coisas.&lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4049676-86959309?l=archetipos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4049676/posts/default/86959309'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4049676/posts/default/86959309'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://archetipos.blogspot.com/2003_01_05_archive.html#86959309' title=''/><author><name>Fabio Fernandes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15069657285755566125</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='21' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_bEKLehsw_1Y/SfG_J6U1BII/AAAAAAAAAD0/Dlentsz9eLo/S220/fabio04_200701.jpg'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4049676.post-86799652</id><published>2003-01-01T20:28:00.000-02:00</published><updated>2003-01-01T20:28:33.166-02:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;Utopia&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vejam este mundo: as ruas das cidades são retas e limpas, não se vê traço de poluição no ar límpido, nem outros ruídos que não o som de um bicho ocasional. Este é um mundo tranqüilo e silencioso.&lt;br /&gt;Este é o sonho de um utopista. Um dia, ele sonhou com um mundo perfeito, onde as doenças e a guerra fossem de vez erradicadas e todos compartilhassem de lucro e felicidade.&lt;br /&gt;Todos, entenda-se, os que merecessem. &lt;br /&gt;Os primeiros a morrer foram os negros. Seguidos de perto pelos judeus. Os asiáticos levaram muito mais tempo.&lt;br /&gt;O processo todo durou décadas. Mas a utopia era persistente.&lt;br /&gt;Quando todas as raças ditas impuras haviam sido erradicadas, o restante da raça humana cabia numa ilha do tamanho da Inglaterra.&lt;br /&gt;E então começou o extermínio.&lt;br /&gt;Primeiro a classe operária caiu; depois os funcionários públicos, e em seguida a classe média.&lt;br /&gt;O que sobrou da elite não daria para encher um estádio de futebol. Mas eles se mataram mesmo assim.&lt;br /&gt;Vejam este mundo: as ruas das cidades são retas e limpas, não se vê traço de poluição no ar límpido, nem outros ruídos que não o som de um bicho ocasional.&lt;br /&gt;A utopia é um mundo desabitado.&lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4049676-86799652?l=archetipos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4049676/posts/default/86799652'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4049676/posts/default/86799652'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://archetipos.blogspot.com/2002_12_29_archive.html#86799652' title=''/><author><name>Fabio Fernandes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15069657285755566125</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='21' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_bEKLehsw_1Y/SfG_J6U1BII/AAAAAAAAAD0/Dlentsz9eLo/S220/fabio04_200701.jpg'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4049676.post-86693585</id><published>2002-12-30T09:08:00.000-02:00</published><updated>2002-12-30T09:08:50.600-02:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;Depois do fim do mundo&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tá lá o corpo estendido no chão. Mas não há nenhuma janela aberta de frente pro crime, e esse é todo o problema, porque a vitima ainda respira. &lt;br /&gt;E como dói.&lt;br /&gt;Ela está tão fraca que não consegue mover um músculo. Respirar dói tanto que algo dentro dela a alerta de que deve ter algumas costelas quebradas, mas esse algo é tão distante neste momento que no instante seguinte ela não se lembra mais.&lt;br /&gt;Só a dor permanece.&lt;br /&gt;Por fora, é só a dor. Por dentro, o corpo queima. A cabeça arde. A vagina parece cauterizada. Por entre as tiras da saia e o que restou da calcinha enrolada no tornozelo direito, ela ainda consegue sentir, muito lentamente, o esperma percorrer o caminho que vai dos grandes lábios à nadega, para pingar no chão molhado e sujo.&lt;br /&gt;A boca está tão seca que ela mal consegue abri-la. E se a abrisse, que diferença faria? A primeira coisa que um dos estupradores fez (porque foram vários) foi lhe dar uma gravata bem aplicada no pescoço. &lt;br /&gt;Tenta se levantar. E então percebe que não está sentindo nem os braços nem as pernas.&lt;br /&gt;Parece o fim do mundo. O problema é que o mundo nunca chega ao fim. Sempre há um depois, e para ela também haverá.&lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4049676-86693585?l=archetipos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4049676/posts/default/86693585'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4049676/posts/default/86693585'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://archetipos.blogspot.com/2002_12_29_archive.html#86693585' title=''/><author><name>Fabio Fernandes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15069657285755566125</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='21' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_bEKLehsw_1Y/SfG_J6U1BII/AAAAAAAAAD0/Dlentsz9eLo/S220/fabio04_200701.jpg'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4049676.post-86623785</id><published>2002-12-28T11:38:00.000-02:00</published><updated>2002-12-28T11:38:19.710-02:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;O Homem Invisível&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Esta é óbvia, você dirá. Todo mundo se sente invisível de vez em quando.&lt;br /&gt;Mas sempre, o tempo todo, não.&lt;br /&gt;O rapaz era... como era mesmo o rapaz? Pergunte a qualquer um, e todos lhe darão a mesma resposta. Não sei, sei lá. É um rapaz como outro qualquer.&lt;br /&gt;Mas como é um outro qualquer?&lt;br /&gt;Aliás, quem é mesmo esse rapaz?&lt;br /&gt;Ninguém sabe. Ninguém vê esse rapaz.&lt;br /&gt;Até poderiam, se quisessem. Se soubessem que ele estava lá, do lado deles, quieto, mexendo seu café com a colherinha sem fazer barulho. E ainda que fizesse, quem ouviria?&lt;br /&gt;Ninguém. Porque ninguém ouve esse rapaz.&lt;br /&gt;Ele também não faz força para aparecer. Que ele tem medo até seria óbvio, se alguém o olhasse por um instante e visse o seu rosto.&lt;br /&gt;Mas como é mesmo o rosto desse rapaz?&lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4049676-86623785?l=archetipos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4049676/posts/default/86623785'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4049676/posts/default/86623785'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://archetipos.blogspot.com/2002_12_22_archive.html#86623785' title=''/><author><name>Fabio Fernandes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15069657285755566125</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='21' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_bEKLehsw_1Y/SfG_J6U1BII/AAAAAAAAAD0/Dlentsz9eLo/S220/fabio04_200701.jpg'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4049676.post-86584517</id><published>2002-12-27T09:59:00.000-02:00</published><updated>2002-12-27T10:49:44.000-02:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;br /&gt;&lt;b&gt;Crimes Perfeitos&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Júlio era o que se podia chamar de um rapaz empreendedor: com apenas vinte e quatro anos, montou seu próprio negócio. Ainda morando com os pais, um casal bonito, saudável e bem-estruturado de classe média, ele ampliou o próprio quarto, comprou um carro, saía nos fins-de-semana com os amigos. Júlio era um rapaz feliz.&lt;br /&gt;Um dia, porém, a rua amanheceu com as sirenes da polícia. Durante a madrugada, Júlio matou os pais a golpes de barra de ferro e facadas. Pelo menos quarenta em cada corpo. O que restou foi queimado.&lt;br /&gt;Nos primeiros dias, Júlio negou, chamou um advogado. A alegação da defesa era a de que ladrões haviam invadido a residência. Não havia uma prova que confirmasse isso.&lt;br /&gt;Não adiantando mais, mudou-se a estratégia. Nova alegação: perda súbita da sanidade, motivada por violenta emoção. Para justificar isso, tudo foi aventado: os pais viviam brigando, o pai tinha uma amante, a mãe também, ele apanhava quando criança. Nenhuma dessas hipóteses foi confirmada.&lt;br /&gt;Mas o advogado era bom. Júlio foi condenado, mas pôde cumprir a pena em liberdade por ser réu primário.&lt;br /&gt;Hoje, Júlio é o que se pode chamar de homem de visão: seu pequeno negócio prosperou, ele hoje é dono de uma grande cadeia de lojas, e ainda encabeça uma ONG cujo objetivo é lutar contra a violência urbana. Júlio é um homem feliz.&lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4049676-86584517?l=archetipos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4049676/posts/default/86584517'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4049676/posts/default/86584517'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://archetipos.blogspot.com/2002_12_22_archive.html#86584517' title=''/><author><name>Fabio Fernandes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15069657285755566125</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='21' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_bEKLehsw_1Y/SfG_J6U1BII/AAAAAAAAAD0/Dlentsz9eLo/S220/fabio04_200701.jpg'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4049676.post-86546003</id><published>2002-12-26T10:03:00.000-02:00</published><updated>2002-12-27T10:50:32.000-02:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;b&gt;Alienígenas&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1944. Uma vala arde ao longe na noite. Os olhos de Moshe acompanham impotentes e silenciosos o cortejo que segue até a beira da pira. Ele tem dezoito anos, e está em Auschwitz.&lt;br /&gt;Subitamente, a imagem se fecha num zoom sobre a vala, e então Moshe consegue ver com nitidez o que está queimando nela.&lt;br /&gt;Crianças e velhos. &lt;br /&gt;Moshe se sente sufocar. Quer gritar, mas não consegue.&lt;br /&gt;Então seus olhos se voltam para uma figura quase ao seu lado à beira da vala. É um louro alto de queixo quadrado e monóculo. Usa o uniforme da SS.&lt;br /&gt;O que mais aterroriza Moshe é a expressão no rosto do nazista que supervisiona a operação de descarga dos cadáveres. O oficial da SS não parece muito mais velho que ele, e no entanto como são diferentes: o alemão olha para os judeus como se eles não existissem. Não, pior, como se os judeus fossem coisas, e não seres vivos. A expressão no rosto do nazista é de indiferença clínica.&lt;br /&gt;O silêncio acaba neste instante. Moshe grita.&lt;br /&gt;E acorda. No bairro do Brooklyn, Nova York, 1996. Ele tem 70 anos, e está na América.&lt;br /&gt;Neva lá fora, mas no peito e na alma de Moshe as valas com as crianças e os velhos arderão para sempre.&lt;br /&gt;Não consegue dormir. Apalpa a mesinha de cabeceira à procura do controle remoto e liga a TV. Na reprise de um talk show famoso, uma mulher com cara de maluca viciada afirma categoricamente ter sido seqüestrada por um disco voador e submetida a experiências pelos alienígenas.&lt;br /&gt;Com um suspiro dolorido, Moshe levanta o braço e olha fixo o azul esmaecido do número tatuado. Os alienígenas dele foram piores.&lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4049676-86546003?l=archetipos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4049676/posts/default/86546003'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4049676/posts/default/86546003'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://archetipos.blogspot.com/2002_12_22_archive.html#86546003' title=''/><author><name>Fabio Fernandes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15069657285755566125</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='21' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_bEKLehsw_1Y/SfG_J6U1BII/AAAAAAAAAD0/Dlentsz9eLo/S220/fabio04_200701.jpg'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4049676.post-86518339</id><published>2002-12-25T15:37:00.000-02:00</published><updated>2002-12-25T15:37:33.863-02:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;br /&gt;&lt;b&gt;A Hora do Pesadelo&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Madalena sonhava com bois. Não os bois plácidos soltos no pasto, não os bichos alegres e coloridos dos livrinhos infantis; Madalena sonhava com bois enormes, imensos, aterrorizantes bois da cara preta, que pegavam as crianças, como na canção de ninar. Madalena acordava chorando, pedindo pela mãe, que vinha lhe dar carinho no meio da noite.&lt;br /&gt;Madalena cresceu. Sonhava com labirintos de corredores estreitos e compridos, no final dos quais sempre havia um monstro, uma criatura que ela jamais via mas cuja existência sentia e não podia duvidar. Madalena acordava sempre um momento antes do encontro fatal, sufocada, sem fôlego, úmida entre as pernas. No dia seguinte conversava com a mãe, pedia conselhos. &lt;br /&gt;Madalena virou gente grande. Casou-se com o namorado da adolescência, que engordou, ficou enorme, imenso. Teve filhos, lindos, mimados, que lhe tomavam o dia inteiro. Parou de trabalhar. Engordou, ficou velha antes do tempo. Madalena não pede mais pela mãe. A mãe morreu. E ela sabe que não adianta mais acordar.&lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4049676-86518339?l=archetipos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4049676/posts/default/86518339'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4049676/posts/default/86518339'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://archetipos.blogspot.com/2002_12_22_archive.html#86518339' title=''/><author><name>Fabio Fernandes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15069657285755566125</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='21' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_bEKLehsw_1Y/SfG_J6U1BII/AAAAAAAAAD0/Dlentsz9eLo/S220/fabio04_200701.jpg'/></author></entry></feed>
